Postagens

A primeira fala de Aquiles (Q.S.1.573-593)

 A primeira fala de Aquiles no poema é no confronto com Pentesileia. Eu achei tão poderosa quanto aquelas proferidas na Ilíada, repleta de imagens interessantes e, ao que parece, únicas.  Ela gemeu alto ao lançar em vão o dardo, e o filho de Peleu disse-lhe com escárnio: “Mulher, como te orgulhas com palavras vãs!                                                      575 Vieste sedenta pela guerra contra nós,   que somos os heróis mais poderosos da terra, que afirmamos da prole de Zeus trovejante descender! Até mesmo o célere Heitor tremia ante nós, se de longe nos fitava avançando                       ...

Pentesileia: o ícone da tempestade sombria (Q.S. 1.353-356).

Imagem
  Traduzir é, com certeza, uma atividade regida pelo deus Hermes. Hermes é o deus dos caminhos, o deus das trocas, sempre levando algo do ponto A para o ponto B, é o deus que detém a "infalível arma da linguagem", como diz um Hino Órfico , é o deus dos intérpretes -- os hermeneutas -- e tradução é um pouco tudo isso, né?  Então, ao traduzir, é bom sempre ter o altar bem ornado para esse deus (e também para as Musas, já que a tradução tem que soar bem, afinal, e também para Atena, porque é necessária aquela inteligência chamada Métis , que os gregos gostavam, e nos leva a procurar saídas para os desafios mais impossíveis).  Mas devo a Hermes a tradução do trecho abaixo, porque o deus Hermes às vezes é também um pouco ladrão, e o tradutor não se furta de furtar boas soluções poéticas dos seus colegas.  Algumas entram no cânone tradutório de Clássicas, como todos aqueles salamaleques com adjetivos compostos -- multiastucioso Odisseu, o multirresonante mar, etc...mas a ...

A morte dos cavalos (Q.S., 1.348-349)

 Pentesileia, a rainha das amazonas, segue assassinando gregos. O poeta descreve que elas atacavam os guerreiros e seus cavalos. O trecho é: ἵπποι δ' ἀμφὶ βέλεσσι πεπαρμένοι ἢ μελίῃσιν ὑστάτιον χρεμέτιζον ἑὸν μένος ἐκπνείοντες. ( hippoi d'amphi belessi peparmenoi e melieisin hystation khremetizon eon menos ekpneiontes .) Cavalos perfurados por flecha ou por freixo relinchavam, exalando suas últimas forças. A passagem é muito marcante, para mim quase uma versão condensada daquela cena do morticínio dos cavalos em Grande Sertão: Veredas.  Mas eu comento essa passagem porque, traduzindo-a, me veio uma questão gramatical: o segundo verso poderia ser traduzido, à letra, como "[os cavalos] relinchavam pela última vez, enquanto exalavam sua força".  ὑστάτιον  funciona como um advérbio. Depois de tentar outras soluções, achei que transformá-lo em um adjetivo, que concordasse com menos (força), funcionaria bem em português, de modo mais conciso e eficaz, como acontece no te...

O mar retumbante (Q.S., 1. verso 320)

Imagem
 No verso 320, Quinto usa uma imagem interessante: Pentesileia ataca os gregos, e ela é como o mar retumbante perseguindo os navios. Pois bem: a palavra para retumbante é βαρυγδούπος ( barugdoúpos ) e eu jurava que seria um epíteto homérico. Para a minha surpresa, não: o termo é raro, aparecendo primeiro em Píndaro. Há também outra ocorrência num poeta do século V a.C., Íon de Quios.  (Robert traduz em sua edição de Píndaro como "baritonante" -- talvez eu pudesse pegar emprestado, já que o termo é tão raro) É interessante como Quinto consegue dar um sabor homérico para seus versos sem, no entanto, recorrer a Homero. 

Canto I, versos 294-304 - Níobe chora

Imagem
Lá os Deuses fizeram de Níobe uma pedra, ainda a derramar seu pranto do alto de um penhasco;                                                  295 choram com ela as águas do ressonante Hermo, choram cimos altíssimos do Sípilo, de onde vil aos pastores sempre se alastra a névoa. Eis um grande prodígio aos mortais viajantes porque é igual mulher aos prantos na lúgubre                                                     300 dor derramando mais de mil lamúrias: e isso dirias ser exato quando a a...

31/03/2024: As repetições em Quinto

[...]  Estênelo matou o forte Cabiro, que de Sesto viera sedento pela guerra   com Argivos, mas não mais tornaria à pátria. Sua morte enfureceu o coração de Páris,                                                              270 e ele disparou contra Estênelo; mas não logrou feri-lo, embora ansiasse, pois a flecha foi desviada alhures, por onde a guiavam implacáveis Queres: matou na hora Evenor, o de cinturão brônzeo, que de Dulíquio viera para lutar com Troianos.                                   ...

Canto I, verso 256-257

 Meríones mata duas amazonas, Máscula e Termodossa. Os versos são: τῇ μὲν ἄρ' ἐς κραδίην ἐλάσας δόρυ, τῇ δ' ὑπὸ νηδὺν  φάσγανον ἐγχρίμψας· τὰς δ' ἐσσυμένως λίπεν ἦτορ. Em uma, a lança atingiu o peito; em outra, no ventre cravou a espada.  A alma logo as deixou.  Além da  sonoridade meio "ríspida" de  φάσγανον ἐγχρίμψας ( phásganos enkhrímpsas ) para o golpe de espada que Meríones dá em Termodossa, ainda temos o segundo hemistíquio, com a expressão λίπεν ἦτορ (lípen etor). Quinto é interessante ao usar esse termo, ἦτορ, que em Homero é usado ora como um órgão com localização bem específica ("peito"), ora como a sede das emoções ou da razão, mas nunca com o sentido aqui usado por Quinto, de "alma", isto é, daquilo que vai embora do corpo quando alguém morre. E Quinto o usa também em outro verso, pouco antes deste. O termo em Homero costuma ser psykhé   (exemplo: morte de Pátroclo, Ilíada. 16, verso 866).  Uma mudança na percepção destes ter...

Canto I - Versos 233-253

É a primeira cena de batalha do poema, com imagens muito bonitas e tétricas (a amazona que perde a vida e seus intestinos ficam expostos; a alma que deixa o corpo e se junta aos ventos). Pentesileia mata um guerreiro importante aqui: Podarces, o segundo em comando entre os Fílaces depois da morte de Protesilau. É interessante: Podarces é o primeiro grego a morrer nas Pós-Homéricas , assim como Protesilau é o primeiro que perde a vida logo ao pisar em solo troiano. Nesse movimento, Quinto poderia estar querendo sugerir que se trata de um reinício da saga de Troia -- não só uma sequência. Pela importância deste Podarces, podemos ainda pensar se temos aqui o ponto alto da aristeia ("rompante heroico") de Pentesileia.  Então Pentesileia abateu Mólion, Persino, Ilisso e Deífico, e também Lerno viril, Hipalmo, Emônides e o forte Elásipo. Aguerrida abateu Laógono, e Lida, Menipo,                  ...

Canto I - Os nomes das Amazonas

 As amazonas que acompanham Pentesileia têm todas "nomes falantes", isto é, com significado transparente. Parece-me importante manter isso na tradução já que eles enfatizam o lugar que elas, mulheres, ocupam num espaço eminentemente masculino, que é o da guerra. Todos os nomes de algum modo parecem jogar com isso e também com qualidades específicas das Amazonas (andar a cavalo).  Κλονίη ( Kloni ē ) - Lida Πολεμοῦσα ( Polemousa ) - Bélica Δηρινόη ( D ē rino ē ) - Aguerrida  Εὐάνδρη ( Evandr ē ) - Máscula Ἀντάνδρη ( Antándr ē ) - Masculina  Βρέμουσα ( Bremousa ) - Bramante  Ἱπποθόη ( Hyppotho ē ) - Cavaleira  Ἁρμοθόη ( Harmotho ē ) - Cocheira  Ἀλκιβίη ( Alkibi ē ) - Defensora Ἀντιβρότη ( Antibrot ē ) - Opositora  Δηριμάχεια ( D ē rimakheia ) - Guerreira 

Canto I - versos 211-213

Καί τις ἅμ' ἀγρομένοισιν ἔπος ποτὶ τοῖον ἔειπε·   »Τίς δὴ Τρῶας ἄγειρε μεθ' Ἕκτορα δῃωθέντα,  οὓς φάμεν οὐκέτι νῶιν ὑπαντιάσειν μεμαῶτας; Os gregos veem Pentesileia avançar e conversam uns com os outros. Estes versos me incomodaram e não consegui passar deles. Fiquei irritado com as soluções que encontrava, achando tudo muito prosaico. Também fiquei bastante preocupado em manter o μεμαῶτας ( mema ōtas ), termo que significa "ávidos" e qualifica a ação dos guerreiros prestes a entrar em combate. Parece, para mim, um termo-chave resgatado de Homero, e Quinto gosta dele (aparece bastante).  É interessante ver a construção com uma oração indeterminada ( tis ... eeipe ). Já aqui o Quinto parece variar em relação a Homero, mantendo certa ambiguidade tanto de quem fala quanto do direcionamento do discurso, se é coletivo ou se é individual. e entre os homens unidos se disse tal palavra: “Quem, depois de Heitor morto, uniu os Troianos, que achávamos que nunca mais atacari...

Canto I, versos 198-210.

 Retraduzi os versos 198 a 210.  A palestra do Rafael em Ghent me inspira a olhar com novos olhos para alguns trechos que já tinha traduzido antes. Paro diante dos versos 198-201: Ἦ ῥα μέγ' εὐχόμενος. Τῷ δ' αἰετὸς ὀξὺ κεκληγὼς  ἤδη ἀποπνείουσαν ἔχων ὀνύχεσσι πέλειαν ἐσσυμένως οἴμησεν ἀριστερός· ἀμφὶ δὲ θυμῷ  τάρβησε<ν> Πριάμοιο νόος, φάτο δ' οὐκέτ' ἀθρήσειν  ζωὴν Πενθεσίλειαν ἀπὸ πτολέμοιο κιοῦσαν. Difícil dar conta, com alguma concisão, de  Ἦ ῥα μέγ' εὐχόμενος ( ē ra meg'eukhomenos ). Também demorei para pensar em alguma solução para  ὀξὺ κεκληγὼς ( oksy kekl ēg ōs ), o grito da águia. A sonoridade é muito bonita em grego e eu não queria que ela empalidecesse em português. Tentei "lancinante grito". Mas ainda não muito satisfeito. Traduzir símiles nem sempre é empolgante. Enorme a prece. Nisso, uma águia, lancinante grito, tendo nas garras uma pomba exalando a vida, com ímpeto voou à sestra. Em torno do coração     ...

Canto I, verso 194: Ἀργείων παλάμῃσι κατὰ στόμα δηιοτῆτο

κατὰ στόμα δηιοτῆτος ( kata stoma d ē iot ē tos )(v.194) Muitos comentadores entendem stoma d ē iot ē tos como o fronte, a linha de frente da batalha. Ao pé da letra, στόμα é boca. Na Ilíada , por exemplo, quando Aquiles retorna ao conflito, ele mergulha na "boca da guerra". Muitos preferem eliminar essa imagem para resgatar a clareza da expressão. Eu gosto da imagem. Acho que a tradução ao pé da letra aqui potencializa o efeito poético. Então traduzi assim a fala de Príamo nesse trecho: "E respeita meu coração: os muitos males que sofri com a morte dos filhos que as Queres me tomaram por artes dos argivos à boca do conflito:" Αἴδεσσαι δ' ἐμὸν ἦτορ, ἐπεὶ κακὰ πολλὰ τέτληκα παίδων ὀλλυμένων οὕς μοι περὶ Κῆρες ἔμαρψαν Ἀργείων παλάμῃσι κατὰ στόμα δηιοτῆτος·