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Pentesileia: o ícone da tempestade sombria (Q.S. 1.353-356).

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  Traduzir é, com certeza, uma atividade regida pelo deus Hermes. Hermes é o deus dos caminhos, o deus das trocas, sempre levando algo do ponto A para o ponto B, é o deus que detém a "infalível arma da linguagem", como diz um Hino Órfico , é o deus dos intérpretes -- os hermeneutas -- e tradução é um pouco tudo isso, né?  Então, ao traduzir, é bom sempre ter o altar bem ornado para esse deus (e também para as Musas, já que a tradução tem que soar bem, afinal, e também para Atena, porque é necessária aquela inteligência chamada Métis , que os gregos gostavam, e nos leva a procurar saídas para os desafios mais impossíveis).  Mas devo a Hermes a tradução do trecho abaixo, porque o deus Hermes às vezes é também um pouco ladrão, e o tradutor não se furta de furtar boas soluções poéticas dos seus colegas.  Algumas entram no cânone tradutório de Clássicas, como todos aqueles salamaleques com adjetivos compostos -- multiastucioso Odisseu, o multirresonante mar, etc...mas a ...

A morte dos cavalos (Q.S., 1.348-349)

 Pentesileia, a rainha das amazonas, segue assassinando gregos. O poeta descreve que elas atacavam os guerreiros e seus cavalos. O trecho é: ἵπποι δ' ἀμφὶ βέλεσσι πεπαρμένοι ἢ μελίῃσιν ὑστάτιον χρεμέτιζον ἑὸν μένος ἐκπνείοντες. ( hippoi d'amphi belessi peparmenoi e melieisin hystation khremetizon eon menos ekpneiontes .) Cavalos perfurados por flecha ou por freixo relinchavam, exalando suas últimas forças. A passagem é muito marcante, para mim quase uma versão condensada daquela cena do morticínio dos cavalos em Grande Sertão: Veredas.  Mas eu comento essa passagem porque, traduzindo-a, me veio uma questão gramatical: o segundo verso poderia ser traduzido, à letra, como "[os cavalos] relinchavam pela última vez, enquanto exalavam sua força".  ὑστάτιον  funciona como um advérbio. Depois de tentar outras soluções, achei que transformá-lo em um adjetivo, que concordasse com menos (força), funcionaria bem em português, de modo mais conciso e eficaz, como acontece no te...

O mar retumbante (Q.S., 1. verso 320)

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 No verso 320, Quinto usa uma imagem interessante: Pentesileia ataca os gregos, e ela é como o mar retumbante perseguindo os navios. Pois bem: a palavra para retumbante é βαρυγδούπος ( barugdoúpos ) e eu jurava que seria um epíteto homérico. Para a minha surpresa, não: o termo é raro, aparecendo primeiro em Píndaro. Há também outra ocorrência num poeta do século V a.C., Íon de Quios.  (Robert traduz em sua edição de Píndaro como "baritonante" -- talvez eu pudesse pegar emprestado, já que o termo é tão raro) É interessante como Quinto consegue dar um sabor homérico para seus versos sem, no entanto, recorrer a Homero. 

Canto I, versos 294-304 - Níobe chora

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Lá os Deuses fizeram de Níobe uma pedra, ainda a derramar seu pranto do alto de um penhasco;                                                  295 choram com ela as águas do ressonante Hermo, choram cimos altíssimos do Sípilo, de onde vil aos pastores sempre se alastra a névoa. Eis um grande prodígio aos mortais viajantes porque é igual mulher aos prantos na lúgubre                                                     300 dor derramando mais de mil lamúrias: e isso dirias ser exato quando a a...

31/03/2024: As repetições em Quinto

[...]  Estênelo matou o forte Cabiro, que de Sesto viera sedento pela guerra   com Argivos, mas não mais tornaria à pátria. Sua morte enfureceu o coração de Páris,                                                              270 e ele disparou contra Estênelo; mas não logrou feri-lo, embora ansiasse, pois a flecha foi desviada alhures, por onde a guiavam implacáveis Queres: matou na hora Evenor, o de cinturão brônzeo, que de Dulíquio viera para lutar com Troianos.                                   ...

Canto I, verso 256-257

 Meríones mata duas amazonas, Máscula e Termodossa. Os versos são: τῇ μὲν ἄρ' ἐς κραδίην ἐλάσας δόρυ, τῇ δ' ὑπὸ νηδὺν  φάσγανον ἐγχρίμψας· τὰς δ' ἐσσυμένως λίπεν ἦτορ. Em uma, a lança atingiu o peito; em outra, no ventre cravou a espada.  A alma logo as deixou.  Além da  sonoridade meio "ríspida" de  φάσγανον ἐγχρίμψας ( phásganos enkhrímpsas ) para o golpe de espada que Meríones dá em Termodossa, ainda temos o segundo hemistíquio, com a expressão λίπεν ἦτορ (lípen etor). Quinto é interessante ao usar esse termo, ἦτορ, que em Homero é usado ora como um órgão com localização bem específica ("peito"), ora como a sede das emoções ou da razão, mas nunca com o sentido aqui usado por Quinto, de "alma", isto é, daquilo que vai embora do corpo quando alguém morre. E Quinto o usa também em outro verso, pouco antes deste. O termo em Homero costuma ser psykhé   (exemplo: morte de Pátroclo, Ilíada. 16, verso 866).  Uma mudança na percepção destes ter...

Canto I - Versos 233-253

É a primeira cena de batalha do poema, com imagens muito bonitas e tétricas (a amazona que perde a vida e seus intestinos ficam expostos; a alma que deixa o corpo e se junta aos ventos). Pentesileia mata um guerreiro importante aqui: Podarces, o segundo em comando entre os Fílaces depois da morte de Protesilau. É interessante: Podarces é o primeiro grego a morrer nas Pós-Homéricas , assim como Protesilau é o primeiro que perde a vida logo ao pisar em solo troiano. Nesse movimento, Quinto poderia estar querendo sugerir que se trata de um reinício da saga de Troia -- não só uma sequência. Pela importância deste Podarces, podemos ainda pensar se temos aqui o ponto alto da aristeia ("rompante heroico") de Pentesileia.  Então Pentesileia abateu Mólion, Persino, Ilisso e Deífico, e também Lerno viril, Hipalmo, Emônides e o forte Elásipo. Aguerrida abateu Laógono, e Lida, Menipo,                  ...